Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

garatujando

 

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

...

A praia da Póvoa ou a aberração em que a transformaram

CARTA ABERTA

AO SENHOR PRESIDENTE DA CÂMARA

DA PÓVOA DE VARZIM

Senhor Presidente,

Entendo ser um dever cívico, que exerço na qualidade de cidadã e de poveira, este que me impele a fazer participação pública de um roubo de que fui vítima, praticado à luz do dia e à vista de todos, na terra em que nasci.

Imponho-me, pois, a incontornável obrigação de o denunciar.

E, ao fazê-lo, manifesto também o meu veemente protesto por terem sido criadas condições que levaram a que esse roubo se concretizasse.

Se o faço endereçando esta carta a V.Exa., Senhor Presidente, é por ser o Senhor quem detém a responsabilidade máxima da gestão dos interesses da Póvoa.

Faço-o, no entanto, convicta de que, neste caso concreto, a culpa não cabe só a um Presidente de Câmara, a uma Assembleia Municipal, a um responsável pela Capitania do Porto, a um responsável pelo Plano de Ordenamento da Orla Costeira.

A culpa do que se passou cabe a todas estas entidades, sim!

Mas cabe também aos poveiros. Ao povo da Póvoa!

A culpa do que fizeram à minha, à nossa Terra, cabe a todos e a cada um dos que com as suas acções ou o seu silêncio, desinteressado ou cúmplice, permitiram o que aconteceu.

E o que aconteceu, Senhor Presidente, foi o terem-nos roubado o mar!

Sobre a areia da praia, desde o seu ínicio frente ao Casino até às Piscinas, foi construída uma cortina de casotas e caixotes de grandes dimensões, em materiais diversos pintados de castanho escuro, que impede a nossa tão antiga, tão profunda, tão essencial relação com o Mar.

Dizem-me que as casotas são apoios de praia. Agrupadas quatro a quatro, ali se guardam os tarecos dos banhistas, ali existe um quarto de banho, ali se inventou um bar.

Bem, que sejam necessários apoios de praia, entende-se.

Que tenham que ter aquelas dimensões e ser naquela quantidade e que tenham sido pintados daquela cor, não!

Dizem-me, também, que aqueles indescritíveis caixotes são cafés.

Ao longo de todo o areal da praia de banhos, entre casotas e caixotes foi permitida a instalação de cerca de cinquenta -pasme-se!- serviços de bar!

Mas haverá alguém, a quem genuinamente interesse o bem da Póvoa e da sua comunidade, que concorde com tão despudorada usurpação dos seus mais elementares direitos?

O Senhor, que tem feito pela Póvoa obra que a valoriza e o valoriza, o Senhor dorme descansado, Senhor Presidente?

O que me roubaram foi, pois, o mar! Roubaram-nos o mar!

Entre barracas de praia e esta proliferação de construções, cortaram-nos o prazer único de desfrutar da vista do mar.

E a Póvoa sem o mar não é a Póvoa!

Quem vai pelo Passeio Alegre em direcção ao Norte tem, à esquerda, aquela cortina escura de caixotes e casinhotos ,e à direita, porta sim, porta não, uma loja de produtos chineses.

A Póvoa está descaracterizada. Adulterarada. Esvaída da alma que a animava!

Eu não vivo na Póvoa mas sou da Póvoa.

Sou filha, neta e bisneta de poveiros.

Esta terra não é só a terrra onde nasci. Esta terra é a minha raiz!

E o mar, o mar da Póvoa, Senhor Presidente, não é pertença de Governo nenhum!

Não é pertença de Câmara nenhuma!

Não é pertença de Partido Político nenhum!

O mar sempre esteve aqui para que dele e com ele vivêssemos. Para que nele lavássemos os olhos. Para que nele nos revigorássemos. Para que nele nos reinventássemos.

A areia grossa, dourada, sempre deixou que espreitassemos o enlevo com que o mar nela se enrola. Sempre nos deixou olhar a ternura com que ele colhe na lonjura os beijinhos que, apaixonado, lhe vem, depois, espalhar pelo regaço.

É pois, aqui, que o mar tem de estar. Aqui! Diante dos nossos olhos!

E a areia tem de voltar a cheirar a algas e a maresia, Senhor Presidente. Não podemos admitir que passe a exalar o cheiro nauseabundo dos interesses privados!

Sabe, o Senhor, o que deveras me surpreende? Sabe o que deveras me magoa?

Pois é este constatar que a minha gente, que porta como herança, no sangue, a bravura dos homens do mar, se deixa ficar, assim, numa confrangedora inércia, a assistir ao roubo do que de mais importante possuímos.

Ora vejamos: Eu participo com os meus impostos para que o Senhor Presidente zele pelos interesses da minha terra. Não para que a destrua.

O que posso eu, então, fazer perante esta situação?

Bem, posso começar por manifestar a minha indignação. É o que estou fazendo.

E posso, também, seguir a sugestão que me fica da leitura de uma carta que um pobre homem da Póvoa de Varzim um dia escreveu ao Dr. Pinto Coelho, que era, à época, director da Companhia das Águas de Lisboa.

Deixe-me ter a ousadia, Senhor Presidente, de fazer minhas as palavras de Eça de Queirós:

Eu obriguei-me para com V.Exa. a pagar a despesa de uma encanação, o aluguer de um contador e o preço da água que consumisse. V.Ex.ª, pela sua parte, obrigou-se para comigo a fornecer-me a água do meu consumo. V. Ex.ª fornecia, eu pagava. Faltamos evidentemente à fé deste contrato: eu, se não pagar. V. Ex.ª, se não fornecer.

Se eu não pagar, V.Ex.ª faz isto: corta-me a canalização. Quando V.Ex.ª não fornecer, o que hei-de eu fazer, Exmo. Senhor?

É evidente que, para que o nosso contrato não seja inteiramente leonino, eu preciso no caso análogo àquele em que V.Ex.ª me cortaria a mim a canalização, de cortar alguma coisa a V.Exa.ª...Oh! e hei-de cortar-lha...

Eu não peço indemnização pela perda que estou sofrendo, eu não peço contas, eu não peço explicações, eu chego a nem sequer pedir água! Não quero pôr a Companhia em dificuldades, não quero causar-lhe desgostos, nem prejuízos!

Quero apenas esta pequena desafronta, bem simples e bem razoável, perante o direito e a justiça distributiva: quero cortar uma coisa a V.Exª.

Rogo-lhe, Exmo. Senhor, a especial fineza de me dizer, imediatamente, peremptoriamente, sem evasivas, nem tergiversações, qual é a coisa que, no mais santo uso do meu pleno direito, eu possa cortar a V.Exª.

Tenho a honra de ser

De V.Exa.ª

Eça de Queirós

Sem outro assunto de momento sou, também eu, de V.Exa.,

Atenciosamente,

Libânia Feiteira

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publicado por garatujando às 16:05
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1 comentário:

De DIMAS MAIO a 27 de Junho de 2009 às 23:04

O que te queria dizer, é que ,estou perfeitamente de acordo com a Libânia
na carta ao Presidente da Câmara.
Aquilo, penso eu, foi inspirado em autênticos espigueiros.
Por isso, não ficariam tão mal numa praia fluvial .
E agora, aquelas 2 grandes barracões ... Que de madeirame ali vai !
Que raio de mostrengos !
E dizia-se que seriam construções ligeiras !...
Abraço.
--
Dimas Maio

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garatujando

publicado por ANTITUDO às 20:11
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